Quando um não quer, dois não brigam. Será?
Eu tenho certeza que você já ouviu aquele ditado popular, "quando um não quer, dois não brigam." Ele soa bonito, parece maduro, evoluído, mas deixa eu te contar uma coisa: essa frase não funciona na vida real. Ele parte da ideia de que basta uma pessoa ‘não querer brigar’ para que o conflito desapareça, como se uma emoção tivesse um botão de liga/desligar.
- "Agora eu quero brigar" (liga).
- "Cansei de brigar" (desliga).
Acontece que um conflito não nasce só quando duas pessoas querem brigar. Mesmo que um não “queira”, o conflito já está instaurado internamente, o simples fato de existir a frustração, a contrariedade, a não resposta, a não correspondência já ativa uma tensão psíquica.
A agressividade, como Freud já colocou, é faz parte do ser humano. Ela emerge quando o desejo encontra uma barreira. Não é uma escolha moral é uma dinâmica natural.
Vou dar um exemplo simples de casal. Uma pessoa quer conversar sobre um problema no relacionamento e o outro quer deixar para depois. Olha o que acontece aqui: um quer resolver, mas o foco do outro está em outra situação (ou quando saca qual é a ideia da conversa e "dá de ombros.") Os dois querem coisas diferentes e só isso já pode levar a um conflito, mesmo que ninguém levante a voz. E sabe o que geralmente acontece depois? O assunto volta… só que maior.
Agora pensa em dois irmãos. Um coloca limite na bagunça que está no quarto e o outro responde:
- "Você tá querendo confusão.”
- “Não. Só quero o quarto em ordem."
A questão aqui não é buscar entender quem está certo e quem está errado nos dois exemplos, mas sim demonstrar que, nas relações sempre vão haver barreiras de interesses. É dizer: "Até aqui dá. Daqui pra frente, não."
Nós possuímos desejos contraditórios, expectativas desencontradas, narrativas diferentes e, inevitavelmente… restos infantis. Mesmo adultos, nossos conflitos podem não vir apenas do momento presente, mas serão provenientes de frustrações primitivas, feridas narcísicas, disputas por reconhecimento, medo de abandono ou invasão.
A verdade é bem simples. Discussões são inevitáveis em qualquer relação. A diferença não está em ‘não querer conflito’, está no saber lidar com ele.
Eu sei que essa frase é dita já a dezenas ou até centenas de anos e não vai mudar só porque eu estou a reavaliando, mas na minha concepção, ela deveria ser assim: "Quando existem dois adultos maduros, não existe briga", mas sim uma conversa difícil. Ainda assim vai existir desconforto e frustração, mas não ataque, humilhação ou guerra.
Existe um outro ponto a se considerar. O fato de que evitar o conflito não é maturidade, e muitas vezes esta atitude está "sob o tutela" do medo, mas isso será assunto para outro texto.
Te vejo em breve.