O Carnaval acabou… mas não é por isso que devemos deixar de lado algumas pautas que foram expostas nele.
A festa passou… mas o que ela revelou sobre a sociedade continua ecoando e o momento social pede atenção, mas antes de começar, vou deixar um contexto.
Tivemos a escola de samba Acadêmicos de Niterói que desfilou pela 1ª vez no grupo especial do Carnaval carioca e homenageou o presidente atual do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva no domingo (15/fev/2026)
Tem algo me engasgando
Na Psicanálise, existe um termo que damos o nome de atravessamento. Ele é utilizado para algo que nos incomoda. Quando algo mexe com a gente, dizemos: “Isso me atravessou.” E então trabalhamos isso dentro da análise.
A questão é simples: se atravessou… é porque é meu. E eu preciso cuidar disso para não virar um problema para mim e para a sociedade.
E sobre esse atravessamento é no tema "Família Tradicional em Conserva." Esse tema apareceu no desfile, quando a escola de samba Acadêmicos de Niterói trouxe a expressão em uma de suas alas. E aqui vale a pena analisar isso com calma e em partes:
Família.
Família é, antes de tudo, uma estrutura de vínculo, identidade e pertencimento. É também uma estrutura simbólica que organiza quem nós somos (Lacan). Ela não nasce apenas do laço sanguíneo, mas também do laço emocional e da responsabilidade. É na família que está a construção de identidade de um bebê e de uma criança. Ali esta a base para ela.
Uma família cumpre funções muito claras de proteger emocional e físicamente, de formação de valores, criação de identidade, cuidado e pertencimento. Mas acontece que a família também está fora do laço sanguíneo. Está naquele amigo que chamamos de irmão, naquele grupo que chamamos de família de mães diferentes. Ou seja, família não é um formato único. É um sistema de relações.
Pode ser formada por: pai e mãe, duas mães, dois pais, mães ou pais solos, avós que criam ou pessoas que assumem esse papel de cuidado. Então na prática, família é menos sobre forma e mais sobre função.
Tradicional
Agora vamos para a palavra tradicional.
No dicionário, tradicional significa algo que foi repetido ao longo do tempo. Algo que virou costume e cultural. No Brasil, é tradição desde 1640 através de uma festa chamada "Entrudo" e virou esse formato com escola de samba em 1920.
Também temos outras festas marcadas e tradicionais, como a festa junina e outras que são regionais, como a Oktoberfest, festa de Parintins e Lavagem do Bonfim. O Natal, também é tradicional, mas sabe onde não se comemora o Natal? Em Israel e em países de origem Islâmica e Budista.
Tradicional não significa universal. E muito menos obrigatório.
O filósofo Bauman explica que vivemos em uma sociedade em constante transformação, onde estruturas antigas entram em crise e ao longo da história, muitas coisas já foram consideradas tradicionais, como papéis rígidos de homens e mulheres (antigamente somente os homens trabalhavam, hoje se a mulher não trabalha, sozinho o homem não da conta nem dele), formas únicas de família e regras sociais que hoje já mudaram.
Então “tradicional” fala mais sobre história cultural do que sobre verdade absoluta. E quando alguém começa a dizer que apenas um modelo é o único legítimo, aí já não estamos falando de tradição. Estamos falando de imposição de norma moral.
Em conserva
Agora essa é a parte mais simbólica dessa crítica: Em conserva. Algo em conserva é algo, guardado, preservado artificialmente, parado no tempo e protegido de mudanças.
Os alimentos em conserva foram criados com essas características a pedido de Napoleão Bonaparte para alimentar seus soldados em guerra pela expansão de seus territórios. Esses alimentos precisavam duram algum tempo.
Quando essa expressão é usada, não é um ataque à família. É uma crítica a um modelo que tenta não evoluir e não dialogar com a realidade atual do mundo. (Com base no Censo 2022 do IBGE, as famílias "tradicionais" (casal com filhos) deixaram de ser a maioria, representando menos de 50% dos lares. Aranjos não tradicionais — como casais sem filhos, mães/pais solos, lares unipessoais e famílias homoafetivas — já compõem mais da metade dos lares brasileiros, refletindo uma grande diversidade estrutural.)
A gente sabe que alimentos em conserva duram bastante e se a ideia é formar uma família que dure anos mesmo que exista dificuldades, é um problema individual e coletivo de cada membro dentro dela, mas sabemos que alimentos em conserva são os mais perigosos para a saúde.
E talvez o melhor não fosse “em conserva”. Talvez o melhor fosse in natura, pois são alimentos mais saudável, menos manipulado e mais autêntico, como bons relacionamentos deveriam ser. Porque relações vivas se adaptam, crescem e se transformam com o tempo, coisa que algo conservado não, pois mantém uma única característica.
Voltando ao ponto inicial
O problema nunca foi a família, mas sim essa família tradicional cristã que se acha a única família perfeita, ignorando famílias de duas mães, dois pais, mães e pais solos como não sendo famílias legítimas.
Família é identidade, sim. Por isso essas famílias não tradicionais também merecem o devido respeito, coisa que os de família tradicional talvez não entendam.
Se a fé na família dessas pessoas é tão frágil a ponto de ficarem se explicando o tempo todo como ela é boa, forte e agradável talvez essa família não seja tão boa ou tão tradicional assim.
Explicação sobre sátira
Antes de se indignar, é preciso entender uma coisa importante. Sátira não é ataque gratuito. A sátira é uma crítica social. Ela usa licença poética e não é literal. Ela entra em assuntos densos de forma divertida, lúdica e provocativa. É feito para levar informação e fazer você pensar.
E eu acho curioso uma coisa. Muitos que se dizem cristãos não assistem desfiles de escola de samba, então, muitos dos que estão fazendo críticas o fazem porque o pastor ou o político de estimação criticou, nem ao menos buscar entender tentaram. Cadê o pensamento autônomo?
O papel da arte
O que a escola de samba fez foi uma contação de história. De forma artística, falou sobre a história de um personagem e o momento atual do Brasil. Foi feito um recorte do evangelicarismo brasileiro que escolheu um conservadorismo autoritário que muitos líderes religiosos fazem abertamente. Então se é aberto, eu realmente não sei por que tanto alarde e indignação quanto a isso!
A arte é subversiva, questionadora e muitas vezes ela choca quem consome, mas ela faz isso para criticar quem usa suas narrativas para dominar e impor visões de mundo.
Então eu volto ao ponto inicial. Se algo ofendeu, se algo atravessou, pega que é seu!