O ciúme costuma se apresentar como cuidado, mas, na prática, é uma tentativa de controle. A lógica inconsciente é simples:
“Se eu vigio, evito perder.”
“Se eu controlo, garanto fidelidade.”
Mas isso é uma baita mentira.
No texto de hoje, falarei sobre o tão temido e controverso CIÚME e por que você não sente ciúme por amor. Fique comigo até o final para entender por que ele pode ser tão problemático para você e para seus relacionamentos.
Quem nunca sofreu por amor, chorou ou até "sangrou", literalmente, por conta do ciúme? Mas será que ciúme é amor de verdade? Vamos à análise de hoje e eu já começo dizendo: você não sente ciúme por amor. E antes que você rejeite essa ideia, deixe-me mostrar de onde isso vem.
Na psicanálise, Sigmund Freud já descrevia o ciúme como um fenômeno que não nasce apenas da realidade, mas de conflitos internos — muitas vezes inconscientes. Ele divide o ciúme em camadas. Uma delas é o chamado ciúme projetado: quando a pessoa atribui ao outro desejos, impulsos e fantasias que, na verdade, são dela mesma.
Ou seja: não começa no outro. Começa dentro de você. E isso muda tudo. Porque, enquanto você acredita que o problema está no comportamento do parceiro, você ignora o que está acontecendo na sua própria mente.
Agora, vamos avançar um nível. A psicanálise de Melanie Klein desenvolve o conceito de identificação projetiva. Aqui, não é só “achar” que o outro faz algo; é mais intenso. Para Klein, você deposita no outro aquilo que não suporta em você: seus desejos, suas inseguranças, seus impulsos. E depois tenta controlar isso no outro.
Percebe o paradoxo? Você vigia, cobra e desconfia, mas, no fundo, está tentando controlar algo que nasceu dentro de você e de que você não gosta.
Segure esse ponto, pois ele se conecta com algo ainda mais antigo. Freud também apresenta a estrutura do Complexo de Édipo. Aqui está um dos pilares mais ignorados do ciúme: a ideia de que o ciumento revive, inconscientemente, sua posição como "o terceiro".
A criança que não era o centro da relação entre pai e mãe; a criança que teve que lidar com a exclusão. Naturalmente, isso deixa uma marca. Na vida adulta, qualquer sinal de “divisão” do amor ativa essa dor. E o que acontece? Você transforma a relação em um triângulo: você, o parceiro e uma suposta rival — mesmo que ela nem exista de fato.
Em uma de minhas supervisões, um analista trouxe o caso de um casal de meia-idade. Eram muito parceiros e felizes, até o dia em que a mulher viu na agenda do companheiro a foto de uma menina. Isso levantou a suspeita de que ele tivesse uma filha fora do relacionamento; por esse motivo, ela começou a fazer análise.
Para resumir a história: a menina era apenas a neta do companheiro.
Essa ilusão acontece porque o cérebro humano é projetado para criar sentido, coerência e previsibilidade, frequentemente preenchendo lacunas com base em experiências passadas e expectativas. Ao ver a foto, ela não questionou imediatamente; ela criou uma fantasia.
É similar ao personagem Bentinho, de Machado de Assis, em Dom Casmurro. Ele interpreta sinais, conecta pontos e constrói uma narrativa que, para ele, faz sentido. A mente não suporta o vazio de informação, então ela o preenche. E, normalmente, preenche com medo, não com a verdade.
Saindo da psicanálise para a lente comportamental, autores contemporâneos trabalham o ciúme como uma distorção cognitiva baseada na ilusão de controle. A ideia é: “Se eu controlar o suficiente, eu não perco.” Mas isso não se sustenta, porque o comportamento do outro não está sob seu domínio. O ciúme cria uma falsa sensação de segurança enquanto desgasta emocionalmente quem o sente.
E aqui entra um ponto pouco falado: o ciúme não é só medo de perder alguém, é também medo de perder status. Em relações monogâmicas, o parceiro também representa valor social. Ser escolhido significa que você tem valor, é suficiente e única. Quando existe a ameaça de perda, sua identidade entra em jogo, gerando o que chamamos de ferida narcísica.
Agora, junte tudo isso:
Uma estrutura inconsciente que não tolera deixar de ser o centro;
A projeção no outro daquilo que você não aceita em si mesmo;
Narrativas internas criadas para sustentar o que você sente;
A tentativa de controlar algo que nunca esteve sob seu domínio.
É claro que isso vai gerar sofrimento. O ciúme não prova que você ama alguém; ele mostra o quanto você ainda não consegue se sustentar emocionalmente sem essa pessoa. Enquanto isso não for olhado com maturidade, você continuará tentando controlar fora o que precisa ser compreendido dentro.
Amar não é vigiar. Amar é suportar a realidade de que o outro não te pertence. E poucas pessoas estão preparadas para isso.
Este tema é complexo e voltaremos a abordá-lo. Por isso, siga nosso canal para não perder a continuação e compartilhe este texto com aquela amiga que precisa ler isso. Vejo você em breve!